Nem todo mundo precisa gostar do morango: respeitar diferenças
por Claudia Manfrim, Psicóloga e Pedagoga

"Achei o morango do amor bom apenas. Achei muito doce pro meu paladar." Foi o que eu disse numa conversa casual. A resposta que recebi foi imediata: "Como assim?! Você deve ter comido o morango errado. Você não comeu o certo." Perguntei o que seria o "errado" e ouvi: "Ah, você vai ter que comer no lugar que eu comi. Aí você vai gostar."
Saí dessa conversa rindo por fora e pensando por dentro sobre as diferenças entre nós. Pensando em como a gente tem uma dificuldade quase automática de respeitar uma opinião que não combina com a nossa. Como se existir uma experiência diferente da nossa fosse uma ameaça. Como se aceitar diferenças de gosto fosse perder algo. Como se, quando alguém diz "não gostei", isso precisasse ser corrigido imediatamente.
E olha que curioso: não é sobre o morango. Nunca é sobre o morango. Se você percebe esse padrão nas suas relações, agende uma consulta para conversarmos sobre como lidar com isso de forma mais saudável.
Nossa urgência de estar certo
É sobre a nossa urgência de estar certo. É sobre a nossa necessidade de validar o que a gente escolheu, gostou, viveu, acredita. É sobre a nossa incapacidade de tolerar o "pra mim foi diferente". Quando alguém discorda da gente — mesmo sobre algo tão banal quanto um doce — isso encosta numa parte frágil: a parte que quer ter certeza, que quer controle, que quer que o mundo seja previsível, que quer que a nossa escolha seja "a escolha certa".
Pesquisas em psicologia social mostram que tendemos a buscar confirmação das nossas crenças e opiniões, um fenômeno chamado viés de confirmação. Quando alguém apresenta uma visão diferente, nosso cérebro processa isso quase como uma ameaça à nossa identidade. Por isso reagimos defensivamente, tentando "corrigir" o outro.
O espelho incômodo
Me peguei lembrando de mim mesma. De situações em que eu já fiz exatamente isso. Em que eu já fiquei indignada com o gosto do outro. Já perguntei, com uma expressão de "não é possível", como alguém conseguia ouvir determinado estilo de música. Como se o ouvido da pessoa tivesse que funcionar do mesmo jeito que o meu.
E aí eu me dei conta do absurdo. Gente, o que eu tenho a ver com o que a outra pessoa gosta ou não gosta de ouvir no carro dela? O que eu tenho a ver com o paladar dela? Com o jeito dela descansar? Com o que faz sentido pra vida dela? Absolutamente nada.
Mas a gente insiste em se meter. A gente tenta convencer, tenta "consertar", tenta explicar como a pessoa deveria sentir. A gente tenta trazer pro nosso ponto de vista como se fosse uma missão. E quando isso acontece em questões mais sérias que gosto de morango — em maternidade, em relacionamento, em trabalho, em escolhas de vida — os danos são bem maiores.
Dica
Da próxima vez que sentir o impulso de "corrigir" a experiência de alguém, pause e pergunte-se: por que isso me incomoda tanto? O que eu ganho convencendo essa pessoa? O que eu perco deixando ela ser diferente de mim?
A vida não funciona em certo e errado

Só que a vida não funciona assim. Nem tudo é certo ou errado. Nem tudo é "o melhor" e "o pior". Nem tudo tem uma verdade única. Existem gostos, existem histórias, existem contextos, existem corpos diferentes, existem experiências diferentes. E cada pessoa construiu sua forma de ver o mundo a partir de uma trajetória única que não conhecemos completamente.
E, ainda assim, parece que estamos vivendo um tempo em que só existem duas opções: a minha ideia e a errada. Isso aparece em tudo: em gosto musical, em comida, em maternidade, em relacionamento, em trabalho, em terapia, em rotina, em escolhas de vida. A gente está cada vez mais duro. Mais literal. Menos curioso. Menos aberto. Menos disposto a escutar.
Compartilhar versus impor
Existe uma diferença muito grande entre compartilhar e impor. Compartilhar é dizer "eu gostei muito desse lugar, se você quiser experimentar, pode ser que você goste também". Impor é dizer "você só não gostou porque você fez errado". Compartilhar abre possibilidades. Impor fecha.
Quando compartilho, estou oferecendo minha experiência como uma opção, um convite. Quando imponho, estou dizendo que minha experiência é a única válida e que a da outra pessoa está equivocada. A primeira postura convida à conexão. A segunda gera afastamento e defensividade.
Para mais sobre como a forma que interpretamos situações afeta nossas reações, confira nosso artigo sobre percepção e perspectiva.
O que ganhamos com a aceitação
Tem algo de muito maduro em conseguir dizer: "Entendi. Pra você foi diferente." Sem tentar corrigir. Sem tentar convencer. Sem tentar transformar a experiência do outro num problema a ser resolvido.
Porque quando eu consigo aceitar que o outro sente diferente, eu ganho duas coisas fundamentais: humildade e liberdade.
Humildade para entender que eu não sou senhora da verdade e da razão. Que minha experiência, por mais válida que seja, é apenas uma entre milhões de experiências possíveis. Que o mundo é muito maior e mais diverso do que cabe na minha visão.
E liberdade para não precisar disputar o tempo inteiro. Para soltar a corda de guerra que não precisa existir. Para deixar de gastar energia tentando fazer todo mundo concordar comigo. Quando eu aceito que diferenças existem e são legítimas, eu me liberto da necessidade exaustiva de provar meu ponto.
Ir além sem concordar
Saber ouvir e aceitar uma nova ideia me faz ir além. E, às vezes, ir além nem é concordar. É só conseguir coexistir. É só conseguir deixar o outro ser outro.
Não preciso mudar minha opinião sobre o morango. Não preciso passar a achar que é a melhor coisa do mundo. Posso continuar achando doce demais para o meu paladar. Mas posso fazer isso sem precisar que a outra pessoa concorde comigo ou sem precisar provar que ela está errada.
Essa capacidade de coexistir com diferenças é fundamental para relacionamentos saudáveis — sejam amorosos, familiares, de amizade ou de trabalho. Casais que conseguem aceitar diferenças de gosto e opinião têm relações mais estáveis. Amizades que sobrevivem às diferenças são mais profundas. Equipes de trabalho diversas, quando respeitam as diferenças, são mais criativas.
Praticando a curiosidade

Da próxima vez que alguém disser "não gostei", "não faz sentido pra mim", "pra mim foi diferente", tenta reparar no impulso que nasce aí dentro. O impulso de explicar, de corrigir, de provar, de vencer.
Respira. E experimenta trocar esse impulso por curiosidade. Em vez de "você está errado", que tal "entendi, o que você sentiu?" Em vez de "você não fez direito", que tal "que interessante, pra mim foi diferente". Em vez de "você deveria tentar de novo do jeito certo", que tal "faz sentido, a gente é muito diferente mesmo".
A curiosidade genuína pelo outro é uma das formas mais poderosas de conexão. Quando pergunto com interesse real o que a pessoa sentiu, estou dizendo: sua experiência importa, você importa. Isso cria vínculo. Isso abre espaço para que a outra pessoa também se interesse pela minha experiência, sem sentir que precisa se defender.
Dica
Pratique trocar julgamentos por perguntas. Em vez de "Como você consegue gostar disso?", experimente "O que você gosta nisso?". A segunda versão abre diálogo; a primeira, fecha.
Maturidade emocional e diferenças
Maturidade emocional também é isso: não transformar toda diferença em conflito. Entender que discordância não é desrespeito. Que preferências diferentes não são ataques pessoais. Que o mundo não colapsa porque alguém gosta de algo que eu não gosto.
Pessoas emocionalmente maduras conseguem conviver com a ambiguidade. Conseguem manter suas opiniões e, ao mesmo tempo, respeitar que outros tenham opiniões diferentes. Não precisam convencer todo mundo para se sentirem seguras. Não precisam "vencer" discussões para se sentirem válidas.
Isso também se conecta com nosso tema de ser dono da razão. Quando insistimos em corrigir os outros, muitas vezes estamos presos em padrões que nos impedem de crescer e nos conectar verdadeiramente com as pessoas.
A libertação de aceitar
E, no fim, talvez a gente descubra uma coisa simples e libertadora: nem todo mundo vai gostar do morango do amor. E tá tudo bem.
Tá tudo bem que minha amiga ache a melhor sobremesa do mundo e eu ache doce demais. Tá tudo bem que meu colega goste de música que eu não suporto. Tá tudo bem que minha irmã faça escolhas de vida diferentes das minhas. Tá tudo bem que existam pessoas que pensam, sentem e vivem de forma completamente diferente de mim.
Na verdade, mais do que "tudo bem" — isso é bom. A diversidade de experiências, gostos e perspectivas é o que torna o mundo interessante. Se todo mundo fosse igual a mim, concordasse com tudo que eu penso e gostasse de tudo que eu gosto, o mundo seria extremamente limitado e entediante.
Respeitar diferenças não é sobre ser passivo ou concordar com tudo. É sobre escolher suas batalhas. É sobre entender que nem toda discordância precisa ser resolvida. É sobre libertar-se da exaustão de tentar fazer o mundo inteiro caber nas suas preferências.
Quando você consegue ouvir "não gostei" sem sentir que precisa convencer, você está praticando uma forma avançada de autocuidado. Você está economizando energia emocional. Você está preservando relacionamentos que seriam desgastados por disputas desnecessárias.
Se você percebe que tem dificuldade em aceitar diferenças, que discordâncias te afetam mais do que deveriam, busque apoio. Baixe nosso ebook sobre emoções e sentimentos ou agende uma consulta para trabalharmos isso juntos. Explore mais reflexões no nosso blog ou podcast.
Nem todo mundo vai gostar do morango do amor. E isso, longe de ser um problema, é simplesmente a vida sendo diversa, rica e interessante como deve ser.

