Donos da razão: quando as certezas travam sua vida

por Claudia Manfrim, Psicóloga e Pedagoga

Donos da razão: quando as certezas travam sua vida

Você conhece alguém que é dono e proprietário da razão? Aquela pessoa que cria determinadas "verdades" e leva isso para todos os lugares da vida, como se fosse uma sentença definitiva. Ela repete as mesmas ideias, usa isso como justificativa para tudo e acredita que aquilo faz sentido sempre, em qualquer contexto, para qualquer pessoa.

A gente conhece pelo menos uma pessoa assim. Às vezes, a pessoa é a gente mesma — e nem percebemos. Neste artigo, quero explorar o que acontece quando nos apegamos demais às nossas certezas e como isso pode estar travando áreas importantes da nossa vida. Se você sente que precisa de ajuda para examinar suas próprias crenças e padrões, agende uma consulta para conversarmos.

O problema de ser dono da razão

Quando alguém se torna dono da razão, algo interessante acontece: a vida dessa pessoa começa a patinar. Ela não consegue expandir perspectivas, não consegue enxergar outras possibilidades e, por isso, também não encontra soluções para os próprios problemas. A vida vai ficando sempre igual, os mesmos conflitos se repetem, as mesmas frustrações aparecem, porque ela continua repetindo os mesmos padrões, guiada pelas crenças que carrega.

Às vezes isso aparece em forma de "frases prontas" que a pessoa sempre usa. Todo mundo ao redor já sabe: "Lá vem fulano com aquela história..." Porque ele é o dono da razão. A frase virou uma marca registrada, uma cartilha que nunca muda, independente da situação.

Estudos sobre flexibilidade cognitiva mostram que pessoas com maior rigidez mental têm mais dificuldade em resolver problemas e adaptar-se a novas situações. A capacidade de questionar as próprias crenças está diretamente relacionada à saúde mental e ao bem-estar.

As verdades que criamos

Lembro de um exemplo bem claro. Conheci uma pessoa que dizia que quem gosta de treinar no sábado de manhã, sair para correr, é porque não tem uma família legal em casa. E isso não tem nada a ver com a realidade. Era uma "verdade" que ela criou, passou a acreditar firmemente e começou a usar como regra universal para interpretar o mundo.

Pense um pouco: de onde veio essa crença? Talvez de uma experiência específica, talvez de uma pessoa que ela conheceu, talvez de uma história que ouviu. Mas virou uma lei absoluta na cabeça dela. E a partir daí, todo mundo que corria no sábado era automaticamente classificado como alguém fugindo de casa.

Existem várias crenças assim: "mulher tem que se comportar de tal jeito, senão homem nenhum vai gostar", "isso é coisa de gente fraca", "se a pessoa faz tal coisa é porque ela é assim", "quem faz terapia é louco", "pessoas bem-sucedidas não demonstram vulnerabilidade". A gente vai acumulando essas verdades ao longo da vida.

Dica

Preste atenção nas frases que você repete frequentemente. Elas podem revelar crenças enraizadas que estão limitando suas perspectivas sem você perceber.

Como as crenças se formam

Crenças enraizadas que limitam perspectivas

As crenças não surgem do nada. Elas nascem das nossas experiências, da nossa criação, do ambiente em que crescemos, das pessoas que admiramos ou tememos. Vivemos algo, interpretamos aquilo de determinada forma, e essa interpretação se solidifica como uma verdade.

O problema é que a vida é fluida demais para caber em uma regra única. O que fazia sentido em um contexto específico não necessariamente se aplica a todas as situações. Mas quando a crença já está enraizada, a gente para de questionar. Ela vira automática, como respirar.

O ciclo que se repete

Quando não conseguimos expandir nosso horizonte, certos problemas se repetem. Se eu acredito que "pessoas não mudam", vou me relacionar com os outros partindo dessa premissa. Não vou dar segundas chances, não vou investir em resolver conflitos, não vou acreditar quando alguém demonstrar mudança. E aí meus relacionamentos acabam sempre da mesma forma, e eu penso: "Viu? Eu tinha razão, pessoas não mudam."

Mas será que não mudam, ou será que eu não dei espaço para ver a mudança? Será que não é a minha crença que está criando a realidade que eu enxergo?

Esse é o ciclo perverso dos donos da razão: a crença molda o comportamento, o comportamento gera consequências previsíveis, as consequências confirmam a crença original. E a pessoa nunca percebe que está presa num loop que ela mesma criou.

Se você está se perguntando "Por que minha vida é sempre assim?" ou "Por que no final do dia acontece sempre a mesma coisa?", talvez valha observar se você não está com crenças enraizadas demais. Para entender melhor como suas percepções moldam sua realidade, confira nosso artigo sobre percepção e perspectiva.

O desconforto de questionar certezas

Existem alguns motivos pelos quais é difícil abrir mão das nossas certezas. Primeiro, elas nos dão segurança. Num mundo incerto e caótico, ter "verdades" nas quais podemos nos apoiar traz uma sensação de controle. Se eu sei como as coisas funcionam, me sinto preparado.

Segundo, questionar crenças antigas exige admitir que talvez estivéssemos errados. E admitir erro é desconfortável. Significa que decisões que tomamos baseadas naquela crença podem ter sido equivocadas. Relacionamentos que terminamos, oportunidades que perdemos, julgamentos que fizemos — tudo isso pode precisar ser revisitado.

Terceiro, nossas crenças fazem parte da nossa identidade. "Sou assim", dizemos. Abrir mão delas pode parecer perder um pedaço de quem somos. Mas será que somos realmente nossas crenças, ou somos algo maior que elas?

A rigidez como proteção

Muitas vezes, a rigidez mental funciona como uma forma de proteção. Se eu não me abro para novas possibilidades, não corro o risco de me decepcionar. Se eu já sei como as coisas vão terminar, não me surpreendo negativamente. É uma armadura, mas uma armadura que também impede coisas boas de entrarem.

A pessoa que é dona da razão frequentemente viveu experiências que a machucaram. E as crenças rígidas surgiram como uma forma de se proteger de viver aquilo de novo. O problema é que a proteção excessiva também impede o crescimento, a conexão verdadeira com os outros, e a possibilidade de experiências diferentes das que já viveu.

O valor do feedback

Sei que nem sempre é gostoso ouvir um feedback de um amigo ou de alguém próximo. Essa pessoa enxerga coisas que você não enxerga — justamente porque está de fora, não está preso nas suas mesmas crenças e padrões. E não é fácil ouvir certas verdades sobre nós mesmos.

Mas, muitas vezes, é exatamente isso que abre caminhos. Um olhar de fora traz clareza. Alguém que te conhece bem pode perceber padrões que você repete sem notar. Pode apontar crenças que você nem sabia que tinha. E isso, embora desconfortável no momento, ajuda a encontrar soluções e melhorar a vida no dia a dia.

Não estou dizendo para aceitar qualquer crítica como verdade absoluta. Nem toda opinião externa está correta. Mas há uma diferença entre avaliar um feedback com mente aberta e descartá-lo automaticamente porque "eu sei melhor". A segunda opção é característica dos donos da razão.

Abrindo espaço para o diferente

Deixar as coisas respirarem um pouco. Essa expressão me parece muito apropriada para esse tema. Quando seguramos algo com muita força — uma crença, uma certeza, uma forma de ver o mundo — não deixamos espaço para o novo entrar.

Questionar não significa abandonar tudo em que você acredita. Significa estar disposto a examinar, a considerar outras perspectivas, a admitir que talvez existam formas diferentes de entender a mesma situação. É como arejar um cômodo fechado há muito tempo: a princípio pode ser desconfortável, mas depois percebemos como estava abafado.

Algumas perguntas que podem ajudar nesse processo: De onde veio essa crença? Ela ainda faz sentido para minha vida atual? Existem exemplos que contradigam essa verdade que eu carrego? O que eu perderia se mudasse de opinião sobre isso? O que eu ganharia?

Reconhecendo padrões em si mesmo

A pessoa que é dona da razão geralmente não se enxerga assim. Ela acha que está apenas sendo realista, ou que tem experiência suficiente para saber como as coisas funcionam. Por isso, o primeiro passo é reconhecer os próprios padrões.

Observe: você tem frases que repete frequentemente? Verdades que usa para explicar diferentes situações? Previsões sobre como as coisas vão terminar antes mesmo de acontecerem? Se sim, vale investigar de onde essas certezas vêm e se ainda servem para você.

Outra pista: quando alguém discorda de você ou traz uma perspectiva diferente, qual é sua reação automática? Se é imediatamente defender sua posição sem nem considerar o que foi dito, esse pode ser um sinal de rigidez que vale examinar.

Dica

Experimente passar um dia inteiro sem defender nenhuma opinião. Apenas ouça, considere, e diga "pode ser" em vez de "não, porque...". Observe como isso muda suas conversas e o que você aprende no processo.

Flexibilidade como força

Flexibilidade mental: mente aberta a novas perspectivas e horizontes

A capacidade de questionar as próprias crenças não é fraqueza — é uma das maiores forças que podemos desenvolver. Pessoas verdadeiramente seguras não precisam estar certas o tempo todo. Elas conseguem dizer "eu não sei", "você tem um ponto", "vou pensar sobre isso", sem sentir que estão perdendo algo.

Flexibilidade mental não significa não ter opinião ou concordar com tudo. Significa manter as portas abertas para informações novas. Significa reconhecer que, por mais experientes que sejamos, sempre há algo que não sabemos, uma perspectiva que não consideramos.

E o interessante é que quanto mais flexíveis nos tornamos, mais conseguimos nos adaptar às mudanças da vida. Problemas que pareciam sem solução ganham novas possibilidades quando olhamos de ângulos diferentes. Relacionamentos que estavam travados podem encontrar novos caminhos quando abandonamos certezas sobre como o outro "é".


Todos nós carregamos crenças e certezas. Isso é parte de ser humano. A questão não é eliminar todas as nossas verdades, mas mantê-las flexíveis o suficiente para que elas nos sirvam, em vez de nos aprisionarem.

Se você percebe que certos padrões se repetem na sua vida, que as mesmas frustrações aparecem em diferentes contextos, talvez seja hora de examinar as crenças que estão por trás. Não para julgá-las como certas ou erradas, mas para entender de onde vieram e se ainda fazem sentido.

A vida é fluida demais para caber em regras fixas. E a boa notícia é que nossas crenças também podem ser fluidas — podemos revisá-las, atualizá-las, transformá-las. Basta estarmos dispostos a olhar com honestidade para nós mesmos.

Se você sente que precisa de ajuda nesse processo de autoexame, busque apoio profissional. Baixe nosso ebook sobre emoções e sentimentos para começar essa jornada, ou agende uma consulta para conversarmos sobre como esse trabalho pode ajudar no seu caso específico. Explore mais conteúdos sobre autoconhecimento no nosso blog ou no podcast.

Abrir mão de ser dono da razão não é perder. É ganhar a liberdade de continuar crescendo.

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