Percepção e perspectiva: o que você pensa muda o que você sente

por Claudia Manfrim, Psicóloga e Pedagoga

Percepção e perspectiva: o que você pensa muda o que você sente

Você já parou para pensar por que duas pessoas podem viver a mesma situação e ter reações completamente diferentes? Uma fica tranquila, outra entra em desespero. O segredo está na percepção — a forma como cada um de nós interpreta o mundo ao redor. E essa percepção não é algo fixo. Ela é construída, moldada pelas nossas vivências, e pode ser trabalhada conscientemente.

Neste artigo, quero compartilhar como a percepção funciona, por que ela influencia tanto as nossas emoções e como você pode começar a observar e ajustar a sua para viver com mais equilíbrio. Se você sente que precisa de ajuda para trabalhar suas perspectivas e reações emocionais, agende uma consulta para conversarmos.

O que é percepção e como ela se forma

Percepção é a forma como cada pessoa capta o mundo, compreende e organiza todas as informações sensoriais que chegam até ela. É através da percepção que damos sentido ao nosso mundo. É como eu olho para as coisas, observo, e isso vai construindo aquilo em que acredito, aquilo que entendo como realidade.

A percepção muda muito de acordo com a formação de cada ser humano, com a cultura, com a criação e com o ambiente em que a pessoa vive. Por isso, às vezes, alguém que mora do outro lado do mundo vai ter uma percepção completamente diferente sobre coisas básicas da vida, como relacionamentos, trabalho ou até o que significa ser feliz. E nem precisa ir tão longe: dentro do mesmo país, da mesma cidade, até da mesma família, as percepções variam enormemente.

Eu sempre dou um exemplo simples para ilustrar isso: cores. Quantas vezes você já discutiu com alguém se uma cor era azul-turquesa ou verde-esmeralda? Lembro que quando eu era criança, mostrei um tom verdinho para uma amiga e disse "isso é verde-água". Ela respondeu: "não, isso é verde-piscina". Estávamos vendo exatamente a mesma cor, mas cada uma nomeava e percebia de um jeito diferente. Parece bobagem, mas revela algo profundo sobre como funcionamos.

O processo da percepção

Como isso acontece na prática? O processo é rápido — piscou, aconteceu — mas podemos decompô-lo em etapas. Primeiro, eu recebo um estímulo do ambiente: algo que vejo, ouço, sinto. É totalmente sensorial. Aí meu cérebro começa a processar essa informação, combinando o que vem de fora com o que já existe dentro de mim — minhas memórias, experiências e vivências acumuladas ao longo da vida.

Eu junto o que chegou de fora com o que já tenho guardado, faço uma interpretação e dou um significado. É assim que formo minha percepção. A primeira impressão se forma em milissegundos. Depois posso conhecer melhor, refletir e mudar, mas o processo inicial é muito veloz e acontece automaticamente, o tempo inteiro.

Pesquisas em neurociência mostram que nosso cérebro processa informações emocionais antes mesmo de termos consciência delas. Isso significa que muitas das nossas reações acontecem antes de pensarmos racionalmente sobre a situação. Entender isso é o primeiro passo para conseguir trabalhar nossas percepções de forma consciente.

A química do corpo e a percepção

A conexão entre mente e corpo: como a percepção reescreve nossa química

O pesquisador Bruce Lipton, da área de epigenética, autor do livro "A Biologia da Crença", tem uma frase que acho muito forte: "O momento em que você muda a sua percepção é o momento em que você reescreve toda a química do seu corpo."

Nosso corpo é um laboratório químico funcionando 24 horas por dia. Dependendo de como eu enxergo uma situação, tenho uma reação específica no meu corpo. Hormônios e neurotransmissores são influenciados diretamente pelo que eu penso e pela percepção que tenho daquilo. Se percebo ameaça, meu corpo produz cortisol e adrenalina. Se percebo segurança, produz serotonina e ocitocina.

Isso não é pensamento mágico — é fisiologia básica. A forma como interpretamos uma situação dispara cascatas químicas reais no nosso organismo. E essas cascatas afetam nosso humor, nossa energia, nossa capacidade de pensar com clareza e até nossa saúde a longo prazo.

Dica

Observe como seu corpo reage a diferentes pensamentos. Quando você pensa em algo que te preocupa, perceba a tensão nos ombros, a respiração mais curta. Quando pensa em algo bom, note como o corpo relaxa. Essa consciência é o primeiro passo para trabalhar suas percepções.

Percepção na prática: exemplos do cotidiano

Deixa eu contar uma situação que vivi recentemente. Acabou a energia em São Paulo quase uma semana toda. Ficamos mais de 24 horas sem luz. Era uma quarta-feira, por volta das 10 da manhã, e eu tinha 11 pacientes para atender naquele dia. Atendo 100% online. Meu primeiro pensamento foi: "meu Deus, como vou fazer isso?"

Comecei a procurar tomadas funcionando no prédio, pensei em montar minha "cabine de atendimento" em qualquer canto. Achei uma tomada no corredor, conectei tudo e fiquei sentada no chão, perto da porta. Confortável não era. Não era nem perto do jeito que estou acostumada a atender. Mas era o que eu tinha para aquele momento.

A pergunta que me fiz foi: ia adiantar eu ficar reclamando "meu Deus, olha essa Enel, que absurdo"? Reclamar faria a energia voltar? Não. Então pensei: não está confortável, mas é o que tenho agora. Vou atender até onde conseguir. Se não der, aviso os pacientes e a gente remarca.

E descobri até um ponto positivo inesperado: fiquei muito mais focada no trabalho, porque entre um paciente e outro não tinha como ficar pegando o celular para ver mensagens. Consegui manter meu humor minimamente equilibrado porque escolhi conscientemente não me destruir por algo que estava fora do meu controle.

O mesmo estímulo, percepções diferentes

O mesmo estímulo pode gerar percepções completamente diferentes em cada pessoa

Tive outro exemplo interessante sobre como a percepção funciona. Mandei um vídeo num grupo de amigos: dois senhores bem idosos, cabelo branco, caminhando com mais dificuldade, fazendo uma corrida com obstáculos. Minha percepção quando vi foi instantânea: "cara, eu quero ser assim quando ficar mais velha, quero estar ativa, com qualidade de vida."

No vídeo, na hora de pular um obstáculo, um deles cai. Cai, levanta e segue em frente. Mandei para várias pessoas. Nove em cada dez comentaram algo como: "que fofo", "quero chegar assim", "eles estão melhores do que a gente". Mas uma pessoa respondeu: "nossa, que medo."

Medo por quê? Perguntei, e ela explicou. Para ela, aquele estímulo acionou memórias e vivências diferentes das minhas. Veio com conotação de perigo, de fragilidade, talvez lembrando situações difíceis que ela viveu. É exatamente isso que quero ilustrar: percepção é o estímulo que chega, processado pelo que cada um já viveu. Para alguém, aquilo era inspirador. Para outro, era assustador. O vídeo era o mesmo.

O equilíbrio entre otimismo e realidade

Sei que esse papo de "mudar percepção" pode escorregar para um lado meio Poliana, aquela positividade sem limite, quase uma positividade tóxica, como se tudo fosse lindo o tempo inteiro. Preciso deixar claro: não acredito nisso.

O excesso de positividade também é perigoso, porque faz a gente não enxergar a realidade como ela é. Precisamos de equilíbrio. Se eu só enxergo o mundo com "óculos cor-de-rosa", perco a noção do real. Mas se fico só no ângulo pesado, deprimido, também não é saudável. O caminho é aprender a regular o humor e as interpretações para ter mais qualidade de vida — sem negar a realidade.

Mudar percepção não é negar a dor

Mudar a percepção não é ficar ausente de sentimentos ou fingir que não existe sofrimento. A dor não desaparece porque você escolhe olhar diferente. No exemplo da energia, não foi agradável atender sentada no chão. Era desconfortável, era frustrante.

Outro exemplo do dia a dia: trânsito. Estou parada no trânsito, sem conseguir ir para lugar nenhum. Se passo o tempo inteiro reclamando internamente, chego em casa já carregada de irritação, e sobra para quem não tem nada a ver com isso — família, amigos, até o cachorro. Não é para dizer "ai que delícia, adoro trânsito". Não. É ruim mesmo.

Mas a pergunta que faço é: o que posso fazer com esse momento para minimizar o desconforto? Posso ouvir um podcast interessante, colocar uma música boa, conversar com alguém por áudio, aproveitar de algum jeito, dentro do possível, para não virar uma hora de lamúria que me destrói emocionalmente.

Vivi muito isso quando morava no interior e vinha para São Paulo quase todo final de semana. Eram 1200 km no total: 600 para vir e 600 para voltar. Não era gostoso dirigir seis horas. Acordava pensando "putz, seis horas de estrada, que saco". Mas eu queria muito estar em São Paulo, ver pessoas queridas, viver aquilo. Então pensava na consequência, no porquê.

Dentro do carro, criei uma "bolha": colocava playlist, ouvia conteúdos educativos, conversava com amigas por áudio. Não tirava totalmente o cansaço, mas mudava completamente a experiência. Não é ausência de sofrimento — é minimizar o desconforto para o humor não desabar.

A sabedoria de aceitar o que não tem solução

Meu avô tinha uma frase que carrego comigo: "Se não tem solução, solucionado está." Parece contraditório, mas na verdade é uma sabedoria profunda. Não é para você ficar passivo diante dos problemas, abandonando responsabilidades ou desistindo de agir. É para você viver de forma pacífica com aquilo que realmente não pode mudar naquele momento.

Não tem solução agora? Então o que dá para fazer com o que eu tenho? Se não tem energia e não posso trabalhar do jeito que gostaria, posso ler, posso brincar com meu cachorro, posso passear, posso respirar, posso usar esse tempo de outra forma. Para mais técnicas de como lidar com momentos difíceis, confira nosso artigo sobre viver com mais leveza.

Isso se conecta diretamente com a capacidade de observar nossos pensamentos e percepções. Será que você não está numa seta descendente, só se levando para baixo? Cada pensamento negativo puxa outro, e de repente você está num buraco de pessimismo que parecia muito menor no começo.

A pergunta-chave para se fazer nesses momentos é: "O que eu tenho para o momento?" "O que eu posso fazer agora com o que está disponível?" Essa mudança de foco — do problema para as possibilidades — não é negação. É inteligência emocional aplicada. Para aprofundar o entendimento de como nossos pensamentos influenciam nosso corpo, veja nosso artigo sobre dopamina e comportamento.

Como começar a observar suas percepções

O convite que deixo é simples, mas transformador: comece a observar suas percepções. Quando algo acontecer, antes de reagir automaticamente, faça uma pausa. Pergunte-se: como estou interpretando essa situação? Que memórias e experiências estão influenciando minha leitura? Existe outra forma de olhar para isso?

Não é sobre forçar pensamentos positivos ou fingir que está tudo bem. É sobre perceber que sempre existe mais de um ângulo para qualquer situação. Tenta virar a moeda. Enxerga os dois lados, para construir mais equilíbrio no seu olhar e, consequentemente, no que você sente.

Essa prática de observação requer treino. No começo pode parecer artificial, forçado. Com o tempo, vai se tornando mais natural. E os benefícios são reais: menos reatividade emocional, mais capacidade de responder conscientemente às situações, e uma relação mais saudável consigo mesmo e com os outros.


A percepção é uma das ferramentas mais poderosas que temos para influenciar nossa qualidade de vida. Ela não muda os fatos externos, mas muda completamente como vivenciamos esses fatos. E isso, no final das contas, é o que importa: não é sobre o que acontece, mas sobre como processamos o que acontece.

Se você sente que precisa de ajuda para trabalhar suas percepções e reações emocionais, busque apoio profissional. Baixe nosso ebook sobre emoções e sentimentos ou agende uma consulta para conversarmos sobre como esse trabalho pode ajudar no seu caso específico.

O que você pensa realmente muda o que você sente. E a boa notícia é que você tem mais poder sobre isso do que imagina.

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