Cuidado com o hype: quando tendências roubam sua autenticidade

por Claudia Manfrim, Psicóloga e Pedagoga

Cuidado com o hype: quando tendências roubam sua autenticidade

Cuidado com o hype. Essa palavra que a gente usa tão facilmente hoje, como se fosse só "empolgação", mas que muitas vezes é exagero. É a superestimação de algo, de uma tendência, de um jeito de viver, como se aquilo fosse a grande resposta. Como se todo mundo tivesse que estar fazendo, gostando, comprando, seguindo, senão... você ficou para trás.

E aqui mora o perigo. Porque quando a gente vai pelo hype, nem sempre está indo por desejo verdadeiro. Às vezes está indo por pertencimento. A gente quer sentir que faz parte de algo, de um grupo, de um estilo, de uma comunidade. Quer a sensação de "eu estou dentro". E isso é tão humano, tão compreensível.

O problema é que o hype não pergunta se aquilo combina com você. O hype só empurra. Se você sente que anda perdido entre tendências e desejos genuínos, agende uma consulta para conversarmos sobre isso.

Como o hype rouba autenticidade

Perda de autenticidade: tentando se encaixar em moldes que não são seus

Aos poucos, o hype vai fazendo a gente perder a autenticidade. Vai confundindo nossos gostos, embaralhando nossas necessidades, colocando uma camada de "o que eu deveria querer" por cima do "o que eu realmente quero". E isso é sutil, porque vem disfarçado de inspiração.

Pesquisas sobre conformidade social mostram que temos uma tendência natural a seguir o que o grupo faz, mesmo quando isso contradiz nosso próprio julgamento. Esse mecanismo evolutivo nos ajudou como espécie, mas pode nos prejudicar quando se trata de construir uma vida autêntica.

A armadilha da identificação

Muitas vezes somos sugestionados a seguir uma tendência quando essa "moda" é ditada por alguém que tem uma imagem que gostaríamos de ter. Acontece algo muito delicado: seguir aquela ideia, daquela pessoa que admiro, me dá a sensação de que estou me aproximando do que desejo.

Como se, ao fazer o que ela faz, eu me tornasse um pouco ela. Como se, ao consumir o que ela consome, eu encostasse no estilo de vida dela. Como se, ao adotar a rotina dela, eu ganhasse a mesma energia, o mesmo corpo, a mesma confiança, o mesmo brilho.

Só que nem sempre aquilo que está sendo mostrado faz sentido para mim. E nem sempre o que funciona para ela funciona para mim. Porque a vida dela não é a minha vida, o corpo dela não é meu corpo, a história dela não é minha história, e os valores dela não são necessariamente os meus.

Dica

Da próxima vez que sentir vontade de começar algo que "todo mundo está fazendo", pare dois segundos e pergunte: "Isso é meu... ou é hype?" Se for seu, vai vir um "sim" calmo, sem urgência. Se for hype, geralmente vem com pressa e medo de ficar de fora.

O exemplo da corrida

Vejo isso muito com corrida, por exemplo. Gosto de correr e pratico esse esporte, e tenho percebido cada vez mais gente querendo correr pelo simples fato da grande influência de pessoas que estão correndo e "vendendo" uma vida muito legal se você fizer isso também.

E pode ser legal mesmo. Pode ser incrível. Pode transformar. Pode dar saúde, disciplina, sensação de superação, de liberdade. Mas também pode virar pressão. Pode virar cobrança. Pode virar mais um lugar onde você se sente inadequado por não conseguir. Pode virar mais um lugar onde você se compara. Pode virar mais um "eu preciso ser assim".

As perguntas que esquecemos de fazer

As pessoas estão esquecendo de se perguntarem o propósito de certas atitudes na vida delas. Por que eu quero fazer isso? O que espero sentir? Eu quero isso mesmo ou quero a sensação de estar incluído? Isso combina com meu momento, minha rotina, meu corpo, meus valores? Estou buscando saúde ou estou buscando aceitação? Estou buscando prazer ou estou buscando validação?

Quando a gente não faz essas perguntas, o hype vira armadilha. Porque ele cria uma meta externa. E, se você não alcança essa meta, você se frustra, se sente incapaz, sente ansiedade, sente que está "atrás". Só que, na maioria das vezes, você não está atrás. Você só está tentando encaixar sua vida numa forma que não é sua.

Para mais reflexões sobre respeitar diferenças e não precisar seguir o que todos fazem, confira nosso artigo sobre respeitar diferenças.

Diferenciar inspiração de pressão

Inspiração genuína vs pressão de tendência: escolha consciente vs medo de ficar de fora

O problema não é experimentar coisas novas. O problema não é se inspirar. O problema não é gostar de tendência. O problema é viver como se você fosse obrigado a acompanhar tudo. Como se precisasse estar em todas. Como se existisse um jeito certo de viver.

Inspiração genuína expande nossas possibilidades sem nos fazer sentir inadequados. Ela nos mostra caminhos que podemos escolher ou não. Pressão de tendência, por outro lado, cria ansiedade, urgência e sensação de estar errado por não seguir.

Reconhecendo os sinais

Um "sim" genuíno não precisa de pressa. Ele faz sentido no seu corpo. Não vem com ansiedade. Você consegue esperar, pensar, decidir com calma. Se for algo que realmente combina com você, vai continuar fazendo sentido amanhã, na semana que vem, no mês que vem.

O hype, por outro lado, geralmente vem com urgência, com medo de ficar de fora, com comparação, com uma sensação de "preciso fazer agora". Se você sente essa urgência, vale pausar e investigar de onde ela vem. Frequentemente, descobrirá que é mais sobre pertencimento do que sobre desejo real.

Pertencimento não deveria custar autenticidade

E eu espero que, cada vez mais, você escolha o que te serve, não o que te encaixa. Porque pertencimento não deveria custar autenticidade. E vida boa não é vida que segue tendência — é vida que faz sentido para você.

Existe um tipo de pertencimento mais profundo e satisfatório: pertencer a grupos que te aceitam como você é, com seus gostos e ritmos próprios. Buscar esse tipo de conexão é muito mais nutritivo do que correr atrás de tendências para se sentir aceito.

Construindo uma vida autêntica

Uma vida autêntica não significa rejeitar tudo que é popular. Significa escolher conscientemente. Às vezes você vai gostar de algo que está na moda — e tudo bem. O ponto é que a escolha seja sua, baseada em como aquilo ressoa com você, não em medo de ficar de fora.

Isso também conecta com o tema de sermos donos da razão: às vezes insistimos em tendências porque criamos uma "verdade" de que precisamos estar atualizados para sermos válidos. Questionar essa crença é parte do trabalho de autoconhecimento.


A próxima vez que sentir vontade de entrar em alguma tendência, comprar alguma coisa, começar alguma rotina, seguir um comportamento que está "todo mundo fazendo", pare dois segundos e pergunte: "Isso é meu... ou é hype?"

Se for seu, você vai sentir um "sim" calmo. Um "sim" que não precisa de pressa. Um "sim" que faz sentido no seu corpo. Um "sim" que não vem com ansiedade.

Se for hype, geralmente vem com urgência. Com medo de ficar de fora. Com comparação. Com uma sensação de "eu preciso".

Escolha o que te serve. Não o que te encaixa. Se você sente dificuldade em distinguir seus desejos genuínos das pressões externas, busque apoio. Baixe nosso ebook sobre emoções e sentimentos ou agende uma consulta. Explore mais no nosso blog e podcast.

Sua vida não precisa caber em nenhuma tendência. Ela só precisa caber em você.

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