Como viver com mais leveza: passos práticos para o dia a dia

por Claudia Manfrim, Psicóloga e Pedagoga

Como viver com mais leveza: passos práticos para o dia a dia

Leveza. Essa palavra aparece com frequência nas conversas que tenho com amigas e pacientes. "Como você consegue levar as coisas de forma tão leve?" é uma pergunta que ouço bastante. A resposta não é simples, porque leveza não é um estado permanente nem uma característica que algumas pessoas têm e outras não. É uma escolha diária, uma forma de se relacionar com os problemas da vida.

Neste artigo, quero compartilhar o que aprendi sobre viver com mais leveza — e preciso dizer logo: não tem nada a ver com ignorar problemas ou fingir que está tudo bem. Pelo contrário. Ter leveza exige esforço, consciência e, principalmente, uma mudança na forma como nos relacionamos com nossas preocupações. Se você sente que a vida está pesada demais, agende uma consulta para conversarmos sobre o seu caso específico.

O que é ter leveza na vida

Encontrei uma definição que achei perfeita: leveza é a capacidade de não se prender a fardos desnecessários e encontrar tranquilidade e força interior para lidar com a vida sem ser esmagado por ela.

Percebe que a definição não fala em ausência de problemas? Leveza não é viver de férias ou ter uma vida sem desafios. É sobre como você carrega — ou não carrega — esses desafios no dia a dia.

Muita gente confunde leveza com displicência. "Deixa a vida me levar" pode parecer leve, mas geralmente resulta em acúmulo de problemas e, no final, mais peso. A procrastinação, por exemplo, é o oposto de leveza: você deixa tudo para depois e, quando vê, está com 350 mil coisas para resolver e a ansiedade nas alturas.

Ter leveza é fazer escolhas. É ter prioridades. É olhar para um problema e decidir conscientemente: "Isso precisa da minha atenção agora ou posso deixar para depois?" E quando decide deixar para depois, realmente deixa — sem ficar ruminando, sem carregar o peso junto.

O cérebro ansioso que herdamos

Para entender por que é tão difícil ter leveza, precisamos olhar para nossa história evolutiva. Nossos ancestrais viviam em constante estado de alerta. Dormiam com um olho aberto e outro fechado porque, a qualquer momento, podia aparecer um predador na caverna.

Esse cérebro ansioso foi fundamental para a sobrevivência da espécie. O problema é que ele continua funcionando da mesma forma, mesmo que hoje não precisemos mais fugir de predadores. Nosso sistema nervoso ainda trata prazos, contas para pagar e conflitos no trabalho como se fossem ameaças à vida. É uma reação desproporcional, mas é como nosso cérebro foi programado.

Entender isso ajuda a ter compaixão consigo mesmo. Não é fraqueza sentir ansiedade — é uma herança evolutiva. Pesquisas mostram que pessoas com maior autoconhecimento conseguem lidar melhor com a ansiedade e têm mais facilidade para regular suas emoções. Mas também significa que precisamos treinar ativamente uma forma diferente de responder às situações, porque nossa reação automática tende ao peso, não à leveza. Para entender melhor como nosso cérebro processa recompensas e estresse, confira nosso artigo sobre dopamina e comportamento.

A metáfora da almofada

Metáfora da almofada: carregar os problemas ou deixar no sofá para lidar depois

Nas sessões de terapia, uso frequentemente uma metáfora que ajuda a visualizar o que fazemos com nossos problemas. Imagine que cada problema é uma almofada. Você pode:

Opção 1 — Carregar a almofada o dia inteiro. Você acorda, pega o problema nos braços e passa o dia inteiro segurando. Não consegue comer direito, trabalhar direito, conversar direito, porque está ocupado demais segurando aquela almofada. E o problema não se resolve por você estar segurando — ele só ocupa todo o seu espaço.

Opção 2 — Deixar a almofada no sofá. O problema continua existindo. Você sabe que ele está ali, pode ver. Mas ele não está ocupando seus braços o tempo inteiro. Em algum momento, você vai olhar e dizer: "Agora é hora de lidar com isso." E aí pega a almofada.

A diferença é enorme. Na primeira opção, você está constantemente esgotado, sem energia para mais nada. Na segunda, o problema existe da mesma forma, mas você tem espaço para viver enquanto não é o momento de resolvê-lo.

Dica

A próxima vez que perceber que está ruminando um problema, pergunte-se: "Posso resolver isso agora?" Se sim, resolva. Se não, coloque a almofada no sofá e vá viver. Você pode pegá-la quando for o momento certo.

Organizar para poder soltar

Leveza não significa não pensar nos problemas. Significa pensar de forma organizada e depois soltar.

Vou dar um exemplo concreto: você precisa pagar uma conta e não tem dinheiro agora. O pensamento ansioso ficaria ruminando: "Meu Deus, como vou pagar? E se não conseguir? O que vai acontecer?" — em loop infinito, sem sair do lugar.

A abordagem leve é diferente:

  1. Reconheço o problema: preciso pagar essa conta
  2. Organizo as opções: posso pedir emprestado? Posso renegociar? Posso conseguir um prazo?
  3. Defino um plano de ação: vou ligar amanhã para renegociar
  4. Solto até o momento de agir

Percebe que o problema não sumiu? A conta continua existindo. Mas eu organizei mentalmente, criei uma estratégia, e agora posso seguir meu dia sem ficar carregando esse peso. Quando chegar o momento de agir, ajo. Até lá, o problema está "no sofá", não nos meus braços.

Isso não é negação. É organização cognitiva. E faz toda a diferença para conseguir funcionar no dia a dia sem estar constantemente sobrecarregado.

Aceitação pacífica, não passiva

Aceitação pacífica: encontrar paz interior no meio da turbulência

Existe uma diferença importante entre aceitação passiva e aceitação pacífica:

Aceitação passiva é "deixar para lá". É ter uma dor de cabeça e simplesmente sofrer, sem buscar nenhuma solução. É ver os problemas se acumulando e não fazer nada a respeito. Isso não é leveza — é negligência consigo mesmo.

Aceitação pacífica é reconhecer a situação, agir no que é possível, e encontrar paz no meio da turbulência. É entender que nem tudo está sob seu controle, mas fazer o que pode com o que tem. É ter dor de cabeça, tomar um analgésico, descansar se possível, e seguir em frente.

A vida leve passa por altos e baixos como qualquer outra. A diferença está na forma de pensar sobre esses altos e baixos. Quando você aceita de forma pacífica que problemas vão existir, para de lutar contra a realidade e guarda energia para lidar com ela de forma efetiva.

A ilusão da performance constante

Um dos grandes geradores de peso na vida moderna é a pressão por performance em tudo. Até o iogurte que você toma precisa "entregar" alguma coisa — tem que ser proteico, funcional, com propósito. Se você vai tomar um sorvete, ele precisa ser sem açúcar, sem lactose, com proteína adicionada.

Tudo virou performance. Tudo precisa de justificativa. E isso é exaustivo.

Vida leve inclui permitir-se momentos sem propósito. Comer algo só porque é gostoso. Descansar sem culpa. Fazer algo apenas por prazer, sem precisar otimizar cada minuto do dia. Quando tudo precisa ser produtivo, a vida perde leveza.

Isso não significa abandonar responsabilidades. Significa entender que você é um ser humano, não uma máquina de produtividade. E seres humanos precisam de pausas, de prazer gratuito, de momentos sem objetivo. Para mais sobre técnicas de autocuidado, explore nosso blog ou ouça nosso podcast.

Construindo leveza no dia a dia

Gosto de usar a imagem do equilibrista no circo. Ele está naquela corda, segurando uma vara enorme, fazendo um esforço tremendo para se manter equilibrado. Equilíbrio não é um estado estático — é um processo dinâmico que exige ajustes constantes.

O mesmo vale para a leveza. Não é algo que você conquista uma vez e pronto. É uma prática diária. Alguns dias são mais fáceis, outros mais difíceis. O importante é continuar tentando, continuar fazendo os ajustes necessários.

E como qualquer habilidade, quanto mais você pratica, mais natural se torna. Os primeiros dias de academia são os mais difíceis. Depois o corpo se adapta e o esforço diminui. Com a leveza é igual: no começo pode parecer impossível não carregar os problemas, mas com o tempo você desenvolve essa capacidade.

Transformar limão em limonada

Eu sei que esse ditado parece clichê, mas ele carrega uma verdade importante: o limão não vai deixar de ser azedo. O problema não vai sumir magicamente. Mas você pode transformar a experiência em algo mais suave.

Conto uma história pessoal: fui viajar com uma amiga querida e, quando chegamos na pousada, descobrimos que era cama de casal, não duas de solteiro como esperávamos. Não tinha como trocar. Dependendo do nosso mood naquele momento, poderíamos ter ficado irritadas, reclamando, pesadas. Mas olhamos uma para a outra e decidimos levar na brincadeira. A viagem inteira foi leve e divertida.

A situação não mudou. A cama continuou sendo de casal. O que mudou foi nossa forma de lidar com ela. E isso fez toda a diferença na experiência.

Nem tudo precisa de explicação

Pessoas que vivem de forma pesada tendem a buscar explicação para tudo. "Por que dormi mal?" "Por que estou me sentindo assim?" "Por que isso aconteceu comigo?"

Claro que é importante entender padrões, buscar tratamento quando necessário, investigar questões de saúde. Mas nem todo desconforto precisa de uma grande explicação. Às vezes você dormiu mal porque dormiu mal. Às vezes está de mau humor sem motivo específico. E tudo bem.

Ficar buscando o "porquê" de cada pequeno desconforto é exaustivo e, muitas vezes, improdutivo. Algumas coisas simplesmente acontecem. Aceitar isso é parte de viver com leveza.


Ter uma vida mais leve não significa ter uma vida sem problemas. Significa aprender a não carregar todos os problemas o tempo inteiro. Significa organizar, priorizar, agir quando é hora de agir e soltar quando é hora de soltar.

É um processo. Exige prática. Mas cada vez que você consegue deixar uma "almofada no sofá" em vez de carregá-la nos braços, está fortalecendo essa habilidade. E com o tempo, a leveza se torna mais natural.

Se você sente que precisa de ajuda nesse processo, que a ansiedade está pesada demais para lidar sozinho, busque apoio. Baixe nosso ebook sobre emoções e sentimentos ou agende uma consulta. A terapia pode ser um espaço valioso para desenvolver essa capacidade de viver com mais leveza.

Cuide de você. Trate-se com generosidade. E lembre-se: levar a vida leve não é ignorar os problemas — é escolher conscientemente como se relacionar com eles.

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