Respiração para ansiedade: técnicas simples e eficazes
por Claudia Manfrim, Psicóloga e Pedagoga

Eu costumo chamar a respiração de "rivotril natural". Parece exagero? Deixa eu te explicar por que essa comparação faz sentido. A respiração é um mecanismo que já está com você, funciona de graça, está disponível 24 horas por dia e, quando usada de forma consciente, pode transformar completamente o seu estado emocional em poucos minutos.
O problema é que a gente menospreza. Por ser algo tão básico, tão automático, acabamos ignorando o poder incrível que essa ferramenta tem. Neste artigo, vou compartilhar o que a neurociência nos ensina sobre respiração e ansiedade, além de técnicas práticas que você pode começar a usar hoje. Se você sente que precisa de um acompanhamento mais profundo para lidar com ansiedade, agende uma consulta para conversarmos.
Por que a respiração muda tudo
Você já deve ter ouvido alguém dizer "respira fundo, conta até 10" em um momento de tensão. Esse conselho popular tem fundamento científico sólido. Pesquisas mostram que respirar lentamente — cerca de 6 respirações por minuto — ativa o sistema de relaxamento do corpo, reduz cortisol e frequência cardíaca, com efeitos imediatos na redução de ansiedade.
Quando você respira de forma consciente e alongada, está literalmente enviando uma mensagem para o seu cérebro: "Estamos seguros, pode relaxar". E o cérebro responde diminuindo a produção de hormônios de estresse e ativando o sistema de calma.
O interessante é que essa relação funciona nos dois sentidos. Assim como a ansiedade afeta sua respiração — deixando-a curta, rápida, superficial — mudar conscientemente o modo como respira pode acalmar sua mente. É uma via de mão dupla que você pode usar a seu favor.
O sistema nervoso e a respiração consciente

Para entender como a respiração funciona no corpo, precisamos falar do sistema nervoso autônomo. Ele é dividido em duas partes que trabalham em equilíbrio:
Sistema nervoso simpático
É o responsável pelo mecanismo de luta e fuga. Quando percebemos uma ameaça — real ou imaginária — ele é acionado. O coração acelera, os músculos tensionam, a respiração fica curta. Esse sistema é importante porque nos prepara para agir em situações de perigo.
O problema surge quando ele fica acionado o tempo inteiro. Vivemos em uma sociedade que nos mantém em estado constante de alerta: prazos, notificações, trânsito, cobranças. E o corpo não diferencia um prazo apertado de um predador prestes a atacar — a resposta fisiológica é similar.
Sistema nervoso parassimpático
É o responsável pelo relaxamento, pela digestão, pela recuperação. Quando esse sistema está ativo, você consegue pensar com clareza, tomar decisões melhores, sentir-se em paz.
Estudos sobre o nervo vago mostram que a respiração consciente estimula diretamente esse nervo, promovendo relaxamento e melhorando o humor. É como se você tivesse um interruptor interno para acionar a calma — e a respiração é a chave.
Dica
Observe seu corpo agora: sua mandíbula está tensa? A língua está pressionada no céu da boca? Os ombros estão levantados? Se sim, seu sistema simpático pode estar mais ativo do que deveria. Três respirações profundas podem mudar isso imediatamente.
O poder do controle inibitório
Uma das coisas mais incríveis que a respiração faz é melhorar o controle inibitório — a capacidade de pensar antes de agir. Essa é uma das funções executivas mais importantes do nosso cérebro.
Sabe aquele momento em que você está prestes a responder de forma atravessada para alguém, mas consegue se segurar? Isso é controle inibitório em ação. Ele é o que nos permite não reagir impulsivamente, mas responder de forma adequada às situações.
O problema é que quando estamos ansiosos, com o sistema simpático a todo vapor, esse controle fica prejudicado. É por isso que em momentos de estresse intenso fazemos e falamos coisas das quais nos arrependemos depois. O cérebro não consegue processar adequadamente.
Quando você para e respira, está dando tempo para o córtex pré-frontal — a parte racional do cérebro — entrar em ação. Aqueles poucos segundos de inspirar e expirar podem ser a diferença entre uma resposta impulsiva e uma resposta ponderada.
Imagina isso num momento de discussão no trabalho, numa conversa difícil com alguém querido, ou quando você recebe uma notícia que te desestabiliza. A respiração é uma ferramenta que te dá tempo para escolher como responder, em vez de simplesmente reagir.
Neuroplasticidade: mudanças que duram
Aqui está a parte mais empolgante: a prática regular de respiração consciente não apenas te ajuda no momento — ela literalmente muda a estrutura do seu cérebro. Isso se chama neuroplasticidade.
Quando você pratica respiração de forma consistente, está criando e fortalecendo conexões neurais. Com o tempo, acessar esse estado de calma fica mais fácil. É como se você estivesse pavimentando uma estrada: quanto mais usa, mais lisa e rápida ela fica.
A analogia que eu gosto de fazer é com a academia. Você não vai para a academia um dia e sai com os músculos definidos. É um processo de construção, dia após dia. O mesmo vale para o treino da respiração. A diferença é que não precisa de equipamento, não custa nada, e pode ser feito em qualquer lugar.
A boa notícia é que os estudos mostram que você não precisa de horas de prática. Entre 3 e 5 minutos diários, feitos com consistência, já começam a produzir mudanças mensuráveis. É um investimento mínimo com retorno significativo.
Técnicas práticas para o dia a dia

Agora vamos ao que interessa: como colocar isso em prática. Vou compartilhar algumas técnicas que uso comigo mesma e recomendo aos meus pacientes.
Técnica básica: observação da respiração
Esta é a mais simples e pode ser feita em qualquer lugar:
- Encontre uma posição confortável — sentado, deitado, ou mesmo no banheiro do trabalho
- Feche os olhos se possível
- Simplesmente observe sua respiração como ela está acontecendo agora
- Não tente mudar nada inicialmente — apenas perceba
- Depois de algumas respirações, comece a alongar levemente a expiração
- Continue por 3-5 minutos
O importante aqui é não se cobrar. Seu cérebro vai vagar — isso é normal, é assim que a mente funciona. Quando perceber que pensou em outra coisa, sem se criticar, gentilmente volte a atenção para a respiração.
Técnica 4-7-8
Esta técnica é mais estruturada e especialmente boa para momentos de ansiedade aguda:
- Inspire pelo nariz contando até 4
- Segure a respiração contando até 7
- Expire pela boca contando até 8
- Repita 3-4 ciclos
A expiração mais longa que a inspiração é o que ativa o sistema parassimpático. É por isso que essa técnica funciona tão bem para acalmar rapidamente.
Prática com cronômetro
Esta é a que eu uso no meu dia a dia:
- Coloque um timer no celular — 3, 5, 10 ou 20 minutos, o que couber na sua rotina
- Sente-se confortavelmente
- Inspire e expire de forma tranquila, contando até 10 respirações
- Volte a contar do 1 quando chegar ao 10
- Continue até o timer tocar
Eu faço isso no horário do almoço. É meu momento de reset no meio do dia. E faz uma diferença enorme para enfrentar a tarde com mais equilíbrio.
Como transformar em hábito
Saber a técnica é uma coisa. Transformar em hábito é outra. Algumas sugestões para integrar a respiração na sua rotina:
Ancore em hábitos existentes: Associe a prática a algo que você já faz. Por exemplo: toda vez que sentar para almoçar, faça 10 respirações conscientes antes de comer. Ou toda vez que ligar o computador no trabalho.
Comece pequeno: Melhor 1 minuto todo dia do que 20 minutos uma vez por semana. A consistência é mais importante que a duração.
Use lembretes: Coloque alertas no celular ou post-its em lugares visíveis até que se torne automático.
Não espere estar mal: Pratique nos dias bons também. É mais fácil acessar a ferramenta em momentos de crise se você já estiver treinado.
Para entender melhor como nosso comportamento é formado por múltiplos fatores — e não apenas pela química cerebral — confira nosso artigo sobre dopamina e comportamento. E se quiser explorar outras práticas de bem-estar, visite nosso blog ou ouça nosso podcast.
Respiração e medicação: aliados, não substitutos
Um ponto importante: eu sou completamente a favor de medicação quando necessária. A respiração não substitui tratamento médico ou psicológico. Ninguém é um anjo que voa com uma asa só — às vezes precisamos de múltiplas formas de suporte.
O que a respiração faz é complementar. Imagina ter todas as ferramentas disponíveis: acompanhamento profissional, medicação se necessário, e mais essa prática que você pode usar sozinho, a qualquer momento. É sobre ampliar seu repertório de recursos para lidar com a vida.
Se você está passando por um momento difícil, se a ansiedade está atrapalhando sua vida, busque ajuda profissional. A respiração vai ser uma aliada importante nesse processo, mas não precisa ser a única. Baixe nosso ebook sobre emoções e sentimentos para começar esse caminho de autoconhecimento, ou agende uma consulta para conversarmos sobre seu caso específico.
A respiração é a coisa mais fácil que temos, um mecanismo que está sempre disponível, que não custa nada, e que pode fazer uma diferença real na sua qualidade de vida. O convite que deixo é simples: experimente. Não amanhã, não quando a ansiedade apertar — agora. Faça três respirações conscientes e observe como se sente.
A mudança não vai acontecer da noite para o dia, mas cada respiração consciente é um passo em direção a um cérebro mais equilibrado e uma vida com mais leveza. E isso, definitivamente, não pode ser menosprezado.

